SANTA CLARA PROTETORA DAS LAVADEIRAS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SANTA CLARA PROTETORA DAS LAVADEIRAS

Lembro-me que tivemos um verão chuvoso. Desses que, pelo excesso de chuvas, acontecem enchentes, alagamentos e destruição. Eu era criança e sempre que começava a chover ouvia a minha mãe dizer:
_ Essa chuva não vai parar nunca mais. Vou rezar para Santa Clara.
_ Por que Santa Clara, mãe? – Perguntei um dia.
_ Santa Clara lavava a roupa do Menino Jesus e rezava para secar – respondia ela sempre.
Ela ia para o quintal, jogava no telhado um pedaço de sabão e rezava uma Ave Maria cheia de fé para que a chuva parasse e a roupa que ela ainda iria lavar se secasse rapidamente.
Nós, nessa época, morávamos em uma casa pequena para tanta gente. Meu avô tinha morrido há três anos e minha avó viera morar na casa da única filha, minha mãe. Colocaram uma cama de solteiro no quarto da minha irmã e a velha passou a dormir ali. Sofia era pequena e não se importou de perder a sua individualidade. Meus pais usavam o outro quarto e meu irmão e eu dormíamos na sala que deixou de ser sala desde que ficamos maiores e era preciso separar o quarto dos meninos.
Meu pai trabalhava na roça. Plantava cebolinha e salsa para vender a colheita na cidade. Toda semana vinha um caminhão buscar os caixotes onde ficavam depositados os molhos amarrados que meu irmão, minha mãe e eu fazíamos.
A vida naquela cidade do interior era calmaria e a família vivia feliz com o nada que tinha. Éramos todos felizes, até o dia que meu irmão caiu de uma árvore de mais de trinta metros de altura quando tentava soltar um papagaio que agarrara nos galhos mais altos. João Carlos caiu e quando minha mãe chegou gritando seu nome ele morreu em seus braços. Foi o dia mais triste de nossas vidas. Meu pai depois disso, passou a beber muito mais e todo dia e minha mãe chorava e se culpava pela morte dele.
Minha avó em pouco tempo, acometida pelo Alzheimer, não conhecia ninguém em casa e ficamos bastante aliviados quando ela morreu. Era igualmente uma mulher sofredora e “foi descansar” como disse minha mãe. Ela se deitou para dormir e não mais acordou. O que poderíamos fazer, minha irmã e eu? Não havia dinheiro para pagar um colégio e começava a faltar comida em alguns dias em casa. Minha mãe estava cada dia mais triste e acabou enlouquecendo quando recebeu a noticia de que meu pai fora assassinado em uma briga de botequim. Ele estava bêbado e um outro bêbado acabou abrindo sua barriga na faca.
Estou lembrando disso tudo hoje, por causa da chuva? Não sei! A chuva está incomodando já e eu não tenho mais a minha mãe para jogar sabão no telhado para Santa Clara. Estou olhando a plantação das terras que agora são minhas e pensando em como minha família sofreu naquele tempo. Minha irmã e eu hoje temos nossas famílias, mas sempre vamos nos lembrar de quando éramos crianças e, por causa da nossa mãe, não gostávamos da chuva.
Será que na cozinha eu teria um pedaço de sabão para jogar no telhado para a Santa protetora das lavadeiras?

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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