SOLIDÃO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SOLIDÃO

*SOLIDÃO*

Nascemos sozinhos! O certo é que morreremos sozinhos também.
Durante todo o período que vivemos, desde que nascemos até quando fecharmos os olhos pela última vez, estamos e estaremos todos sempre sozinhos.
Os pais, os irmãos, a família convivem, mas cada um a seu modo está sozinho. Há milhões de coisas em cada cabeça que não faz parte da outra mente, que jamais serão divididas e cada um carrega o seu fardo o seu modo de existir naquela comunidade que é a família. Quando não se tem uma família, a comunidade em que se vive se torna a família. Como se tornam família os colegas de trabalho, de escola, de ideais. Família é um monte de gente que abraça aquele, ou aqueles ideais – não todos! Impossível dividir todos os ideais.
E aí vem o amor. O amor ama a si mesmo e a outra pessoa completa aquilo que se espera para ser feliz. Mas a pessoa é feliz por ter a outra consigo, mas ainda assim, não a tem cem por cento e, também os amores, se amam mas estão sozinhos. Cada um amando a si mesmo e amando loucamente a parte de si mesmo que o outro ocupa, mesmo que seja para incomodar bastante.
Os filhos não nos trazem companhia. Mesmo que tenhamos uma dúzia de moleques, cada um vai estar crescendo e vivendo sua vida sozinho e, na maioria das vezes, o velho vai atrapalhar essa solidão e por isso mesmo, se torna um peso. E o velho estará sozinho cercado de um bando de familiares todos sós e ninguém conseguirá entender as necessidades de ninguém nesse momento.
Avós, pais e filhos de uma família numerosa, muitas vezes prefeririam que não tivessem a obrigação de se encontrar ou de se falar para não atrapalhar aquele momento íntimo que cada um quer ter consigo mesmo, mas que não consegue assumir para si.
O pior momento que todos vivem é o fato de estarem todos sós no meio da multidão.
Estamos sós. Não conseguiremos nunca estar com quem quer que seja inteiramente. A solidão faz parte da vida do ser humano. Um dos momentos de maior solidão é quando vamos dormir. Deitamos sozinhos, deitamos acompanhados, conversámos, trocamos beijos, abraços, carinhos, fazemos amor, ou simplesmente lemos um livro, mas ao apagarmos a luz e fechamos os olhos estamos indubitavelmente sozinhos. Talvez por isso temos os sonhos. Sonhamos com coisas agradáveis ou não, mas também nos nossos sonhos estaremos sozinhos até acordarmos – sozinhos.
O ser humano nasceu para viver em comunidade e necessita dessa união para aplacar a solidão inerente ao ser. Apesar de tudo, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e vamos morrer sozinhos.
Em todo esse percurso, vamos nos dar e vamos receber os outros sozinhos nas nossas solidões.

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

4 comentáriosDeixe um comentário

  • Os textos de Artur Laizo fluem com mta naturalidade, fazendo com que sintamos a presença de um amigo com quem conversamos. Sejam eles mais reflexivos ou mais descontraídos sempre oferecem momentos de agradável fruição intelectual..

  • Amei seu texto, Artur. A solidão é inerente ao ser humano. Muitas vezes, até no meio da multidão, nos sentimos sós. Você descreve , de forma magistral , essa nossa condição. Parabéns.

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